
Dono do melhor futebol do mundo, pródigo em títulos e craques, ao Brasil ainda faltava um lugar onde a história vencedora de nossos Pelés e Garrinchas fosse contada. Com a inauguração do
Museu do Futebol, na última segunda-feira, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, a lacuna foi finalmente preenchida.
Com três pavimentos incrustados de maneira quase imperceptível na imponente entrada do estádio, em uma área de 6.900 m2, um pouco menor que o campo do Maracanã, a intenção do museu, nas palavras de Leonel Kaz, curador e idealizador de boa parte de suas atrações, é "mostrar a história do Brasil no século 20 através do futebol."
Houve também a preocupação em guardar um espaço para o time do coração dos visitantes, mesmo os que moram fora de São Paulo. Todos os times que já participaram alguma vez do Campeonato Brasileiro estão presentes de alguma forma. Nem os extintos Colorado e Pinheiros foram esquecidos. A primeira visão ao entrar no museu são três paredes com fotos que retratam desde times de botão até propagandas antigas estreladas por jogadores de futebol, passando por flâmulas e escudos diversos. Coritiba, Atlético e Paraná aparecem três vezes nos quadros pendurados, contando para o Tricolor uma flâmula do E.C. Água Verde. O Londrina também está lá.
Pelé onipresente
Mas a maior atração do andar térreo é a exposição "As Marcas do Rei", dedicada a Pelé, sempre tratado nos textos com pronome pessoal em letra maiúscula: "Ele". Não faltam objetos pessoais de Pelé, como o cartão de inscrição na Copa de 1962, uma bola de meia que lhe foi dada de presente pelos amigos de infância e os uniformes do Bauru Atlético Clube, o Baquinho, clube no qual começou a jogar, e da seleção, com o qual foi campeão mundial em 1958. Não faltam nem as capas dos discos gravados pelo Rei em parceria com Elis Regina e Sérgio Mendes e fones para escutar o disco "Ginga", com canções compostas e interpretadas por Pelé. Na saída, uma estátua de cera em tamanho real mostra Pelé com o uniforme completo da Seleção de 70. E no segundo piso, um vídeo do Rei exibido em um telão recebe os visitantes em português, inglês e espanhol. Quase onipresente, Ele ainda divide com Garrincha uma atração no terceiro piso.
A parte com potencial mais polêmico do museu está na entrada do segundo pavimento. Ali são projetadas em painéis translúcidos as imagens dos 25 maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, segundo os consultores do museu.
"Todo mundo votou nos Anjos Barrocos (nome da atração) para chegar numa lista", conta o jornalista Marcelo Duarte, autor do Guia dos Curiosos. Os encontros feitos parte em São Paulo e parte no Rio de Janeiro reuniram especialistas como o próprio Marcelo, Juca Kfouri, Celso Unzelte e João Máximo. Pelé e Garrincha são presenças óbvias na lista, que ainda conta com os tricampeões Gilmar, Gerson, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto Torres e Rivellino; os pioneiros de 1958 Didi, Djalma Santos, Nilton Santos, Vavá e Zagallo; os tetracampeões Bebeto, Romário e Taffarel; os pentacampeões Ronaldo (também tetra), Ronaldinho, Rivaldo e Roberto Carlos; e craques que nunca venceram a Copa do Mundo, como Zico, Sócrates, Falcão, Julinho Botelho e Zizinho.
Logo adiante, em um misto de homenagem aos goleadores e narradores, gols históricos podem ser ouvidos nas vozes de locutores como Ary Barroso, Fiori Gigliotti e Osmar Santos. No mesmo salão, gols escolhidos por 30 personalidades são exibidos em telões. As duas atrações são das poucas inacabadas do museu: funcionam, mas ainda não é possível escolher qual gol escutar ou ver. Em breve, garante Kaz, a opção estará disponível.
A sensação de subir ao terceiro pavimento é parecida com a de entrar em um estádio em dia de clássico. Em uma área imediatamente abaixo da arquibancada do Pacaembu, vários telões com o som no volume máximo reproduzem os gritos das 30 maiores torcidas do país, incluindo os três grandes da capital: Atlético, Coritiba e Paraná.
"Fiquei deslumbrado. A vibração e a sensação ali são muito boas", diz o palmeirense Luciano Martins, de 37 anos, que foi ao museu com o filho Rafael, de 11. "A gente aprende a ter respeito pelos outros times. É um espaço ecumênico", afirma o corintiano Avelino de Sousa Filipe, 38 anos, que foi acompanhado da filha Amanda, de 7 anos.
Cultura e futebol
A partir dali, cultura e futebol se misturam. A história da chegada e desenvolvimento do futebol no Brasil é mostrada com mais de 400 fotografias retratando também os costumes do país entre o final do século 19 e começo do século 20. O museu também alçou Domingos da Guia e Leônidas da Silva à condição de "heróis da cultura nacional", ao lado do pintor Cândido Portinari e do escritor Mário de Andrade.
Na sala das Copas do Mundo, as fotos dos jogadores e títulos mundiais dividem espaço com momentos históricos, como a chegada do Homem à Lua ou a morte de Ayrton Senna. "As pessoas falam sobre as fotos, se lembram. Há uma riqueza oral que o museu passa. Não é um museu para ficar parado, mudo. Não é ficar olhando uma escultura grega sem entender nada", teoriza Leonel Kaz.
Pênalti a 115 km/h
As atrações do terceiro pavimento são ligadas por uma passarela que tem vista para toda a praça Charles Miller, onde fica o estádio. Depois de passar por ela, várias placas trazem números e curiosidades sobre o futebol, como a partida com o maior número de jogadores expulsos ou a maior goleada de todos os tempos, além de frases folclóricas.
A frase "Quem nasce Barcímio Sicupira nunca pega apelido", dita pelo maior artilheiro da história do Atlético, estampa uma das placas.
Antes da saída há atrações que dão mais a impressão de se tratar de um parque de diversões do que de um museu. Uma exibição em três dimensões de Ronaldinho, que gravou especialmente para o museu, realizando jogadas e truques. E um goleiro virtual, projetado em uma parede, que tenta defender pênaltis cobrados pelos visitantes. Um sensor mede a velocidade do chute. O mais rápido atingiu 115 km/hora.
Inaugurado na segunda-feira, o museu foi aberto ao público na quarta-feira, quando registrou 600 visitantes. Na sexta-feira, o número já tinha saltado para 984. A organização do museu espera ter os mesmos 40 mil por mês do Museu da Língua Portuguesa, que também fica em São Paulo.
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